Ana Lee e a Liberdade - Um vôo rasante. (parte 2)

Quando eu de cima de meu muro solitário vi aquele anjo voando em direção ao sol. E, como disse antes, aquela visão de um anjo de asas bem brancas voando com asas douradas pelo sol daquela manhã tão linda, aquilo me deixou extremamente feliz. Mas algo em meu espírito felino me avisava da paixão pela luz sem conhecê-la que ela enfrentaria. E foi um das primeiras vezes que este Gato Laranja aqui miou para o sol, observando aquelas asas de liberdade sumirem no horizonte em busca da felicidade. Fiquei ali parado contemplando durante vários minutos a cena inesquecível daquele vôo até que ela desapareceu de minha vista no infinito do céu alaranjado pelo sol refletindo do mar e de minha imaginação.
Havia uma certeza em mim, certeza de gato, de que ela iria embora para sempre. Pois foi tudo o que sempre ela sonhou, sumir de sua casa, ir embora. E ela teria muito ainda o que ver e viver em sua nova vida.
E minha certeza vinha depois de muitas conversas com ela sobre a liberdade e a poesia que essa palavra carrega em si mesma. Jamais pensei que Ana Lee voltasse para a o chão. Tamanha a vontade que ela tinha de ser livre tamanha a vontade que ela tinha de experimentar o mundo por seus próprios meios e olhos sinceros de menina doce.
Os dias se passaram e eu continuei minha vida de gato de telhado em telhado, de muro em muro. Mas algo em mim havia mudado também com aquela visão, pois eu sempre que podia passava no muro daquela casa e olhava aquele quarto vazio, a cama desarrumada. E meus ouvidos felinos ouviam um chorar angustiante de uma mãe lá dentro. Este chorar era como que o chorar de Verônica com um lenço ensangüentado na mão vendo seu Senhor passando pela dor da morte. Mas aquilo não era a única coisa que me doía. Pois mesmo feliz de saber que Ana Lee estava livre tinha algo em mim que havia se partido. Algo em mim que ficou faltando ou que foi levado com aquele anjo. Foi a primeira vez que senti que eu também tinha coração. E que estava eu, um gato vira-latas, apaixonado por um anjo.
Pois bem, o tempo passou e uma semana parecia um mês. Minha vida de gato seguia até tranqüila. Mas sempre eu perambulava pelos arredores da casa dela e via a mesma cena da cama ainda desfeita e o mesmo choro sofrido vindo lá de dentro. Partia-me a alma aquele choro daquela megera mãe.
Até que um dia entrei sorrateiramente pela janela e andei pelo quarto de outrora dores insuportáveis de uma menina presa e agora abandonado por uma anja livre. Vi discos de rock espalhados pelo chão. Meu instinto fez com que eu me aproximasse de um guarda roupas que na porta jazia uma camiseta preta de uma banda de dos anos noventa, uma banda da qual ela gostava muito. Encontrei no chão seu amuleto em forma de coração cor-de-rosa jogado embaixo da cama e guardei comigo.
E quanto mais eu me aproximava da porta do quarto mais aquele pranto de uma mãe desesperada se fazia presente em mim, mais seu volume e intensidade de sofrimento me compadeciam daquela mulher. Antes ignorante e carcereira de uma menina e agora com saudades e medo pela filha anja que voara pra longe, livre.
Senti medo que ela notasse minha presença em sua casa e fugi pela mesma janela que entrei. Ao subir no muro da casa ouvi uma voz doce, uma voz celestial e feliz me chamando. E quando olhei para cima em direção ao telhado da casa lá estava ela, Ana Lee com suas asas de penas brancas. Ela sorria muito, um sorriso de vitória e cansaço que estava praticamente escrito em seu rosto e seu olhar.
Pulei para cima do telhado o mais rápido que pude ao encontro dela. Ela me pegou no colo e me abraçou forte, minhas unhas e meu rabo laranja tigrado se arrepiaram.
- Senti sua falta meu gatinho... – me disse com uma ternura que na época de sua dor eu nunca havia notado em sua voz
- Eu senti a sua também.
- Mas meu sentimento é confuso, pois nunca pensei em querer mais vir ao chão, de voltar a essa casa.
Essas palavras dela me entorpeceram demais, vi que ela estava com saudades, saudades de mim e isso era bom. Mas até que ponto um anjo tem saudade de um gato vira-lata? Ainda mais depois de tanto querer voar e agora conseguir verdadeiramente.
- Minhas saudades de você Ana Lee só me puseram uma realidade na cara a qual eu sempre fingi não ser do meu feitio felino. Eu te amo e não consigo entender como pude me apaixonar por uma humana e que agora virou anjo.
Ela ouviu isso de minha boca com perplexidade igual a minha quando notei que falara tal coisa assim, desse jeito franco, direto e sincero, sem esperar. Uma atitude de um inconseqüente e de um animal irracional que sou , afinal eu sou um gato!
- Você me surpreendeu com isso meu gatinho, mas...
O suspiro que ela deu antes de prosseguir durou mais ou menos dois segundos, mas para mim soaram como a eternidade de um amor não correspondido, à medida de uma carta que se espera e se sabe que nunca chegará.
-... Mas eu também descobri que não consigo viver longe de você, lá no mundo eu vivi tanta coisa, encontrei tantos anjos como eu, voávamos em névoas desconhecidas e em brumas de amor. Bebi do néctar dos deuses, mas ficava o tempo todo angustiada, sentindo que minha liberdade não era tudo aquilo que sonhei, sentindo que fantasiei muito em minha mente, mas ali não era meu mundo. Fiz amigos diferentes dos humanos comuns. Amigos que tinham a liberdade que eu conquistei. Mas na hora de dormir aquela alegria se transformava em tristeza e saudade. Saudade de nossas noites de lua cheia sobre o muro, você me ouvindo e entendendo a minha dor.
No que ela disse a palavra dor, senti que algo havia voltado junto com ela daquela viagem, e não era só a saudade que ela sentia de mim e que estavam embutidas também naquelas palavras uma saudade de sua mãe. Senti que era algo de que eu já conheci na vida. E na própria Ana Lee.
- Sua mãe chora sem parar. Desde o dia em que foi embora ela nunca mais entrou em seu quarto e deixou tudo como estava no dia de sua partida – eu precisava dizer isso a ela, mesmo que ela não quisesse ouvir, ou que em seu rosto se demonstrasse que ela já sabia disso. O que para mim representava que ela também havia ouvido aquele pranto mesmo estando longe.
- Meu gatinho, você guarda dois segredos com você?
- Sim.
- Um deles é que eu te amo também. Mas ainda ninguém deve saber disso e outro é que minha dor... minha dor saiu de minhas costas e agora está em meu peito, aqui dentro... – e apontava o coração com suas mãos sempre lindas, mas com um sorriso sumido de seus lábios naquele momento.
Aquela menina que vi muitas vezes chorar transformara-se numa linda mulher em minha frente. Tinha inconscientemente virado adulta, não sabia, mas sentia isso dentro dela. E eu sorri, com certo pesar, pois assistir alguém virar adulto em sua frente não é tão magnífico como ver uma menina se transformar em anjo.
Eu sem pensar muito a beijei sorrateiramente com tamanha intensidade e desejo que no momento em que a beijava, meus pelos sumiram, meu rabo desapareceu e minhas unhas e dentes afiados se transformaram. E ainda a beijando me vi na forma humana. Me senti na forma humana. Ela, que já não tocava mais no corpo de um gato neste beijo longo e duradouro, estremeceu com minha transformação em humano, mas me agarrou com mais força ainda em direção à sua boca. Nosso beijo durou treze minutos, segundo a Lua me contou depois, numa noite.
- Largue a minha filha seu canalha!!!
E ao olharmos para o chão, sem que nossos lábios se separassem, avistamos o pai dela furioso lá em baixo, subindo já por uma escada vindo em nossa direção. E no momento em que nosso beijo foi interrompido me transformei em gato novamente, num passe de mágica. O que deixou o homem perplexo diante daquela cena de transformação, e transformado em gato novamente de uma maneira felina e instintiva corri muito, pulei de telhado em telhado olhando para trás e vendo a cena dela tendo suas asas amarradas com uma corda pelo seu pai enquanto seus olhos se transformavam em rios de sofrimento novamente. Como antes de terem nascido suas asas.
Jurei naquele instante voltar para salvá-la de lá enquanto corria e sentia meu coração de gato pela primeira vez em anos de sete vidas amando de verdade. Ela me chamava aos prantos quando olhei para trás pela última vez e miei bem alto para que ela ouvisse que eu também a amava e nunca a abandonaria.




GATO LARANJA
01/04/2008

Ana Lee e a Liberdade (parte 1)

Liberdade é uma conquista. Para vocês humanos logicamente, pois nós gatos, parafraseando o poeta, já nascemos livres. Nenhuma jaula forçada pode segurar o coração liberto de um felino, nenhuma.
E isto me fez lembrar de uma menina inesquecível em minha alma de sete vidas que conheci e conheço em meus muros que se chama Ana Lee. Se eu aqui fosse falar tudo mesmo sobre ela escreveria um romance lindo, pois ela é incrível e sua história, que apesar de sua pouca idade aí pra vocês humanos, é longa e recheada de sonhos. Sonhos e ideais de conquista simples, mas humanos e verdadeiros. Como todo sonho deve ser para não virar pesadelo futuro.
Dizem que toda liberdade tem seu preço, para todos. Mas para Ana Lee essa liberdade tinha preço sim, mas não era em valores financeiros que ela media isso, ela quantificava seu sonho de ser livre em um único número. O número vinte e um. O dia eu que completaria vinte e um anos.
Nascera ela de uma boa família, pais inteligentes e modernos. Desde a infância primeira, Ana Lee se mostrava diferente. Mostrava-se inteligente a olhos vistos de seus familiares. Tanto que aprendeu a ler muito precoce, e desde que leu seu primeiro livro nunca mais parou de ler. Tinha uma tia que achava que ela era reclusa demais e até meio fechada pra sua idade. Que havia algo estranho nela ao ponto de ela ser sempre mais feliz com um livro na mão do que brincando com seus amiguinhos na escola.
Mas uma coisa intrigava muito seus pais, seus irmãos e ela mesma. Pois desde que pode se queixar de alguma coisa em sua vida ela se queixava de dores profundas em suas costas, na altura de seu coração para ser mais exato. Levaram esta menina à médicos profetas, doutores intrigados, curandeiros disfarçados e nada se encontrava nela que justificasse essa dor. Nem exames clínicos e muito menos psíquicos. Mas ninguém nunca pensou em tirar uma radiografia de sua alma.
Na medida em que Ana Lee ia crescendo a dor aumentava, a ponto de seus pais acharem que essa dor era invenção de sua cabeça sonhadora e fértil demais para sua idade. Que era tudo uma farsa tirada de seus livros para que a atenção lhes fosse chamada. E foi assim que pararam todos de levar a sério suas queixas e suas dores.
Aos treze anos Ana Lee foi apresentada ao amor. Que veio feito fúria de vento noroeste avisando chuva forte. Não pôde dizer isto a ninguém, pois a dor em suas costas aumentava à medida que o fogo da paixão dominava seu coração adolescente. E já há tempos tinha perdido o diálogo generoso e infantil de outrora com seus pais. Desse amor veio um namorado que lhe apresentou algo novo em sua vida, um violão. Que logo entre seus primeiros olhares ao novo aparelho de sonhos e seus primeiros acordes, somou-se em sua estante de livros como coisa nascida nela e inseparável dela. Mas as dores aumentavam e muito.
Um dia, em seus livros, um índio de antiga monta americana lhe deu em segredo um amuleto cor-de-rosa para que usasse pendurado em seu pescoço sempre, a fim de diminuir sua dor nas costas. Ela nunca mais o tirou do pescoço e sempre que ainda a vejo, este amuleto reluz e me remete a este tempo da vida de Ana Lee, quando ela veio e me mostrou o amuleto, lindo em forma de coração.
Aos quinze anos Ana Lee sentia uma vontade imensa de sumir, pois sentia seu sonho de ser livre sempre castrado por seus pais que não a entendiam e muito menos a levavam a sério sobre suas vontades e suas dores. Queixava-se e era trancada em seu quarto com seus livros e seu violão, pelos pais ou por vontade própria. E assim um dia tomou uma decisão radical: fugiu de casa. Entretanto, sua pouca idade e sua pouca perspicácia sobre o mundo exterior, logo levaram seus pais a seu paradeiro, seu esconderijo, seu amor. Isto foi o ponto chave para que mais privação de liberdade se fizesse presente em sua vida e no seu dia-a-dia. Foi mandada para uma psicóloga. No começo ela não gostava, mas depois ela descobriu em sua terapeuta uma amiga de ouvidos atentos, conselhos honestos, palavras diretas e amor por ela mesma.
Até o dia em que completou dezoito anos e numa noite fria de um verão quente, estava eu em meu muro e ela apareceu chorando e dizendo que não suportava mais aquela dor nas costas e que alguém deveria ajudá-la. Mas como eu gato vira lata poderia falar algo sobre o que nunca foi tirado de mim do jeito que acontecia com ela. Conversamos horas sobre o amor, sobre música, sobre sonhos e lua cheia. Senti que seu coração se abrandou com nossa conversa. Senti que ela precisava de alguém que a ouvisse e a sentisse. Senti até dúvidas em meu próprio coração sobre ela. Que as carrego ainda.
Dezoito anos não lhe serviram de nada, ela me confessou numa tarde de sábado em que eu em meu telhado tomava sol nos pêlos. A não ser para poder dirigir e escolher sua profissão. Mas as regras e dúvidas eram tão grandes em seu coração que resolveu esperar mais sobre seus caminhos humanos profissionais. Olhou num espelho, viu imagens distorcidas dela mesma e se aquietou.
Só que uma coisa não mudava em nada: suas dores nas costas. E o que eram apenas dores no começo de uma vida feminina agora eram suplícios por remédios, conselhos e magias para que o tormento e o peso do mundo parassem de doer em sua carne de tão violenta forma.
O tempo foi passando e fui ficando mais próximo dela. Comecei até a freqüentar os muros de sua casa. E quase toda noite a chamava para conversar pela janela sobre o mundo e sobre poesia. Coisa que sempre gostamos muito. Nossa amizade se fortaleceu e ela encontrava em mim e em sua terapia semanal forças para vencer suas dores. Eu nem sempre me sentia bem, pois a fato de ser um felino quadrúpede e de pêlos cor-de-laranja me impediam que nossa amizade fosse além de nossas aparências. Mas nossos olhos não mentiam e isso era bom. Era como se a verdade se tornasse pura entre nós.
Até que o grande dia estava chegando para ela. E na noite antes de fazer vinte e um anos ela caminhando com dificuldades devido às dores veio perto de mim e me deu um abraço forte, e feliz me disse que seu sonho desta noite seria realizado. Eu chorei de emoção de vê-la tão sofredora e tão feliz ao mesmo tempo.
Fui fazer minhas rondas pelos muros da vizinhança até o dia nascer, em companhia da minha lua cheia. E a cena que vi ao amanhecer nunca mais saiu de minha cabeça. Mas antes de contar o que vi no raiar do dia, conto o que Ana Lee me disse sobre aquela manhã.
Ela disse que foi dormir feliz esperando sua alforria, sua maioridade. Mas ao deitar-se a dor de que sempre fora acometida se tornou tão forte que achava ela, em delírios, que a morte estava a levando embora. Já na cama não suportava mais o peso do mundo em suas costas. O colchão parecia, em contato com sua pele, como que brasas ardentes de uma fornalha do inferno. Mas de tanto sofrer sucumbiu à dor e apagou seus olhos sofridos de vinte e um anos vividos em tormento. Ao acordar, pela primeira vez em sua vida levantou sem dor alguma. Estranhou muito tudo aquilo. A dor sumira, mas algo estava ainda pesando em suas costas. Foi quando ao se deparar nua em frente ao espelho notou grandes asas brancas saindo como que por mágica atrás de si mesma. Das sua costas. Não acreditava no que via e no que estava acontecendo. Mas se sentia imensamente feliz com aquilo tudo. Sua asas eram feitas de carne e ossos cobertas de penas alvas e amáveis. Sensíveis e macias.
E o que eu vi de cima de meu muro foi a imagem de um anjo lindo, saindo voando de sua janela em direção ao céu, em direção à liberdade. Com suas asas brancas douradas pela luz do sol radiante daquele dia feliz.



GATO LARANJA
29/03/2008

O Sonho de Mirella

Estava ela na praia, à luz do sol. Do mar reluzia um cheiro de rosas, todos à sua volta sentiam essa brisa de flores ressabiados e deitados em cadeiras de vime já não encontradas em nossos verões modernos. O perfume das rosas, apesar de inóspito não mexia com os pensamentos de Mirella e sim o calor da estrela maior bronzeando seu corpo lindo escultural, morena à brasileira, violão de mulher.
Quando não em segundos de relógio o sol lindo se degradava atrás de algo que não era uma nuvem noroeste, nem frente fria vinda do sul. O céu escurece de repente. Então é que sua visão pensa estar a ludibriando, mas não! Uma grande onda se ergue no mar. Sim, á ela! É ela que escurece a luz do dia, o sol desaparece atrás da onda. Navios e barcos à deriva de suas escolhas capitãs e âncoras viram meros brinquedos pequeninos pelo vulto da onda. O horizonte desaparece em uma imensa vaca precípta.
Um barulho estrondoso que se ouvia desde a praia até o centro da cidade tomava conta de ouvidos avisados ou não pela imagem da catástrofe. Os passos largos de suas lânguidas e esculturais pernas correndo muito não a livravam da hecatombe da vaca se fechando em sua cabeça, em cima das pessoas e de sua cidade.
Quando sua mãe sentada ao pé de sua cama repete insistentemente:
- Não vai ao trabalho hoje minha filha? Já são horas!
A imagem de sua bronca mãe chega a ser uma luz num túnel escuro, tamanho o pesadelo passado. Seu café com leite ainda sem açúcar parece doce à lembrança do pesadelo ainda vivo em sua memória sonolenta. Pela décima vez este sonho ainda a persegue. Nunca tivera sonhos relevantes antes. Mas ser engolida junto aos seus não era apenas um pesadelo, e sim o sonho mais apavorante que Mirella já tivera.
“E se repete, por quê?” Num pensamento perdido no ônibus o questionar do inverossímil a põe de joelhos em sua praia de fantasias.
Ao chegar à empresa, seus pensamentos se misturam e se esvaem numa confusão de compromissos e pendências anteriores de seu trabalho. O dia passa lento interminável à pressa de suas tarefas profissionais. Ao demorar o poente do tempo irremediável do relógio girando em seu descanso de tela, voltam em suas questões pessoais a onda e sua hecatombe fantasmagórica.
“Que raios de sonho é esse?”
Ao chegar em sua casa depara-se com uma cena comum e costumeira de seu pai Antonio sentado ao sofá lá pela décima cachaça do bar da esquina lhe rogando: “Deus lhe abençoe minha filha! Como foi seu dia?” Como se tal pergunta tivesse importância aos dois, ela cansada pensativa e ele embriagado de seu trabalho e sua cana costumeira, diária. Ignorou-o como de costume. Dona Viviane ainda na cozinha ao sentir a entrada triste de sua filha bradava:
- Venha comer minha filha, vai esfriar!
- Boa noite mãe. – respondia Mirella ainda pensativa e agora chateada com seu cotidiano besta. – Já vou, vou me lavar antes!
O barulho insosso da água da torneira do banheiro nem de longe lembrava sua praia de pesadelos. Mas a remetia ao medo do afogamento inevitável de sua onda. Afogamento este que em seu sonho nunca chegara a findar-se, pois sempre acordava antes de sua eminente morte surreal.
Arroz, feijão do almoço requentado, ovos estralados e batatas fritas. Era como se Dona Viviane sentisse seu desejo de sentir-se em casa ao menos uma vez em seu próprio lar sem graça, amor.
Ao deitar-se Mirella vivia a angústia de um náufrago esperando sem colete e bote salva vidas seu barco afundar. Mas tamanho o cansaço que seus olhos apagavam-se antes da luz de seu telefone transformado por ela segundos antes em despertador. E num estridente barulho de musiquinha de celular modernoso, entende, sente e agradece por mais uma noite sem praia, sem barulho de uma vaca imensa e sem ondas de afogamento em seu sono de trabalhadora infeliz. O cheiro do café de sua mãe indica o começo de um novo dia e a anti-presença de seu pai que madrugava para o trabalho. Sem beijos e sem bom dia minha filha.
O ônibus, a mesa e o computador a fazem esquecer de anteontem e seu sonho mortal. Volta a sentir-se bem. Ao menos longe de casa. Assim entorpece sua alma e sua vida em obrigações, prazos, broncas dadas e recebidas, profissionais competentes e incompetentes à sua volta, viajando em sua nau empresa. Esta sim, navegando em mares calmos diante dos marinheiros ultra-atarefados. Seu computador e sua colega de trabalho avisam que é hora de voltar ao nu da vida crua. É hora de ir embora.
Vontade de chegar em casa depois dos dezoito anos completos ela nunca teve. Ambições de morar sozinha passavam longe de sua realidade assalarial e de sua vida triste. Odiava sua casa, ou seu lar. Teve dezenas de vontade que seu ônibus de volta vivesse em voltas intermináveis. Rodando a esmo sem nunca parar no ponto perto de sua rua.
Ao deparar desta vez, como em algumas outras a ausência de seu pai no sofá. Sabia que o destino de sua hora seria o mesmo do pedido vindo da cozinha sob a voz de sua mãe:
- Vá chamá-lo no bar minha filha! Ele deve ter esquecido o relógio!
- E desde quando ele olha para o relógio a não ser para ir ao trabalho!
Saiu de casa a caminho do bar da esquina com um sentimento rês na forquilha abatedoura. Odiava tudo aquilo. Odiava seu pai. Odiava o bar. Odiava tudo. Não precisou chegar à fatídica esquina e encontrou o velho jogado na sarjeta como um andante bêbado.
- Pai, levanta, vamos pra casa! A mãe tá preocupada!
- Boa noite minha filha! Como foi seu dia? – sussurrou alcoolicamente o velho como se em seu sofá estivesse deitado, e não em cima da vergonha de sua família e da alma de Mirella.
- Levanta pai!
O arrasto do velho até o terceiro andar de um prédio sem elevador foi trabalho herculano. Mas o ódio e a lucidez de Mirella a fizeram encontrar forças dentro de si, que nem a vizinha à porta assistindo a cena avassalou sua determinação. Ainda que sua vontade real fosse de subir e jogar o velho lá de cima pela janela. À casa sua mãe fazia de conta de que nada anormal estava ocorrendo. Pois era verdade. Quantas vezes a filha já não arrastou o pai para casa? De anormal nada tinha o ato de força exterior e interior da filha. Mas o normal era mesmo o mal-agradecimento e as injúrias paternas na hora do chuveiro de bêbado que a mãe providenciava nessas ocasiões.
Mirella desta, como doutras vezes, deitou-se sem comer. Ajustou o celular e adormeceu. Já em sua praia de vimes e odores de rosas, pensando em seu bronzeado lindo e seu corpo de desejos masculinos. O céu se escureceu novamente, barcos ficaram à deriva da sorte outra vez e o estrondo foi maior que dos outros pesadelos. E num relance de fúria e coragem, vendo as pessoas correrem da morte inevitável, ela parou e olhou para dentro da vaca gigantesca vindo em sua direção e não correu. Esperou sua hora encarando seu destino de afogada. Esperou e foi engolida pela natureza mortal da onda. Respirou fundo e no instante em que sentia ser arrastada pela força da natureza e sua crueldade tissunâmica, sentiu penetrar em seu ser o odor das rosas e por alguns segundos mergulhada no fundo de uma mar azul esperando sua morte. Enxergou seu pai anos antes sorrindo sem estar embriagado a esperando voltar da escola no portão de sua casa com um beijo enorme em seus desejos, viu sua mãe feliz regando os vasos de planta e assoviando velhas canções dos anos sessenta, com abraços e apertos de espera de sua filhinha que chegava feliz. Sentiu o ar acabando e a água entrando em seus pulmões lentamente com sua fragrância rósea. Viu ainda uma foto sua e de sua falecida juvenil irmã abraçadas em uma casa vendida anos antes. Sentiu seu último olhar levado pela onda gigante à um tempo em que sua vida nunca mais a deixou pensar e lembrar. Deu um beijo na sua mãe, um abraço bem apertado em seu pai e fechou seus olhos azuis e grandes de afogada. Seguiu seu destino de concha no fundo do mar e morreu.
Não acordou mais, não foi trabalhar e foi feliz em paz no mar de suas lembranças passadas. Mesmo com sua mãe tentando dizer que estava atrasada!



GATO LARANJA
19-03-2008



Um Set na alma humana

Vida de aposentado já foi mais difícil, não digo neste país apenas, mas minha vivência de gato mostra que hoje meus amigos bichanos de senhoras na melhor idade estão ficando mais sós em casa do que nunca.
Já foi o tempo em que velhinha ficava em casa cuidando do gato e regando samambaias entre um remedinho e outro. Mas também não foram as aposentadorias que aumentaram de valor e sim as opções de lazer e a busca por coisas mais interessantes pra fazer do que resmungar em casa e esperar a morte chegar com a sacolinha de remédios nas mãos.
E seu Alfredo é um desses aposentados que não ficam em casa. Viúvo há mais de dez anos, nunca quis uma companheira pra si, pois sente que ainda ama sua esposa onde quer que ela esteja. Mas aproveita o tempo em várias atividades.
Faz ginástica, dança de salão. Gosta de ver seu coringão jogar na padaria da esquina de sua casa. Mesmo em jogos noturnos. Internet então, depois que descobriu, só para depois das duas da manhã.
Mas uma dessas atividades de seu Alfredo, e uma das que mais gosta é um pouco estranha, perdoada toda mania estranha de velho. Eles podem, tem direitos adquiridos pela idade de serem estranhos e diferentes, como uma aposentadoria de restrições sociais.
Voltando a mania diferente de seu Alfredo. Ele todo sábado vai ao clube de campo assistir jogos de tênis. Geralmente garotos adolescentes que se matam e suam sozinhos em seus respectivos lados atrás de uma bolinha amarela com uma raquete em punho.
Seu Alfredo gosta de ver mesmo o empenho dos meninos solitários em seu jogo. Ele nunca soube e nunca se perguntou direito as regras do jogo. Nem se interessa por isso realmente. Mas de tanto assistir jogos entende que as partidas são divididas em sets. Contados de uma forma em quem faz seis pontos ganha um set, com oportunidades de saques contados em pontuação que nunca entendeu, mas iguais para cada lado dos jogadores.
E o que ele entende bem mesmo é que o tênis é um esporte solitário, assim como ele. Cada qual com seu jogo e sua vida. Um esporte de concentração e que só é vencido jogada por jogada. Sem pensar no futuro e sim no que está acontecendo agora neste instante em quadra. Como sua vida de aposentado e viúvo.
Gustavo por sua vez é um menino bom, toca guitarra, estuda num bom colégio e ama sua namorada. Mas sua paixão mesmo é o tênis. Joga bem, tem um saque forte e preciso. Seu jogo de fundo de quadra é impressionante para um garoto de dezesseis anos. Pancada de gente grande na bola.
E todo sábado está lá na quadra do clube jogando muito e vários sets com seus amigos. E nunca deixa de notar aquele torcedor idoso sempre presente, que com o tempo, até troca algumas palavras como “bom dia”, “tudo bem com o senhor?”, “gostou do jogo”. A resposta de seu Alfredo é sempre cordial e maneada por sins e ótimo. Seu Alfredo é um senhor gentil.
Com o tempo Gustavo tornou-se o jogador predileto do nosso idoso torcedor. Não por seu jogo bem colocado e agressivo. Mas pela sua falta de equilíbrio emocional e concentração nas bolas, pelas raquetes lançadas ao solo em pontos perdidos, pelos auto xingamentos a que se impunha o moleque ao errar jogadas fáceis. Isso o faz lembrar de sua juventude, de seus destemperos infantis. De um tempo em que os hormônios estão contra nosso pensamento equilibrado e nossa concentração ao derredor cotidiano.
E Gustavo, às vezes mesmo jogando bem e tendo uma pegada mais forte que seus habituais oponentes, vive perdendo jogos. Seu Alfredo que não entende nada de tênis sabe o porquê. A falta de equilíbrio emocional do garoto, o destempero a que o faz senil e feliz recordar de sua juventude.
O garoto não entende como pode ser o jogador mais aplaudido do velho em ótimos lances, se, às vezes, no fim do set, perde o jogo.
Gustavo, repito não é um mal garoto, mas é vitima do destempero juvenil. Que ao observá-lo em quadra, rememora seu Alfredo de um passado longínquo e tempera seus sábados solitários de torcedor.
O menino sempre ao observar seu torcedor fã, queria poder ter a paciência e o controle emocional contidos no sorriso do velho. Poder ter aquela pose de quem já conquistou o mundo e é feliz nas lembranças de suas navegações pelos mares da vida
E seu Alfredo gostaria muito de, ao observar o jogo duro e solitário do menino, ter novamente dezesseis anos e com sua sabedoria jogar tênis aos sábados.
Mas Deus dá asas e raquetes nas mãos de todos em nossa vida. E o Ele que não nos conta divinamente em Sua sabedoria onipresente é a receita do conhecimento, da sabedoria e do equilíbrio para que quando entrarmos nas quadras da vida e jogarmos os sets da alma não desperdicemos nosso tempo, nossa vida e nosso melhor jogo.




GATO LARANJA
15-03-08

O trabalho simplifica o homem

Quem não quer ficar rico?
Raramente alguém responderá esta pergunta com uma negação, obviamente àqueles que já o forem. Lembrando que tem ricos que querem ficar cada dia mais ricos e diriam sim à minha simples pergunta.
E este era o sonho de Antônio Carlos. Como o de muitos outros por esse Brasil. Mas a realidade dele, seu cotidiano o levava sempre ao mesmo dilema: trabalhando eu não fico!
Não que nosso amigo Antônio Carlos não gostasse de trabalhar, muito pelo contrário, ele era esforçado e gostava do que fazia. Tinha verdadeira paixão pelo seu ofício: professor de história.
Dava aulas em duas universidades e um curso preparatório para concursos.
Seus alunos, não conseguiam tirar o olho de suas aulas. A paixão era tanta que as pessoas menos avisadas sobre o que estava sendo dito, sentiam-se num comício eleitoral. Tamanho furor, tamanha capacidade e dedicação, garra e euforia do mestre. Tamanho carisma.
Mas esta empolgação toda se esgotava logo que ele, tarde da noite chegava em casa e deparava com um apartamento simples, móveis velhos e rústicos, uma luz queimada no banheiro que nunca era trocada por falta de tempo e sua geladeira quase vazia.
Comia uma maçã e deitava em sua cama dura, colchão velho, presente de sua avó ainda em tempo de faculdade.
Lia sempre algo, de preferência autores romancistas e cronistas. Vida dura, simples. Urbana.
Acordava muito cedo, pois dependia de um ônibus que passava a cada duas horas em sua rua, o de número treze e se perdesse ele chegaria pelo menos duas horas atrasado, coisa que nunca acontecera em sua vida profissional.
Depois um metrô para chegar ao seu primeiro emprego, uma faculdade em que dava aulas para a cadeira a que fora formado: história.
Seu desânimo acabava ali na entrada da sala de aula, junto com a digestão de seu café com leite, pão e margarina tomados horas antes.
Começava a falar, fazia a chamada rapidamente, pedia para os desinteressados que saíssem antes de sua aula do dia e começava seu discurso, preparado há anos, para seu dia-a-dia de aulas, mas com o mesmo entusiasmo da primeira vez.
Uma coisa interessante era que ninguém saía de sua aula, nem para fumar ou ir ao banheiro. Ficavam todos ali, olhos atentos, interessados naquela magnífica aula.
E assim passava sua manhã. Almoçava no refeitório dos professores e pegava mais dois ônibus para sua segunda jornada.
Sempre, mas sempre mesmo, pensava em desistir daquilo tudo. Mas ao décimo arroto de sua refeição estava ele novamente empolgado e empolgando na sala de aula num curso de direito vespertino.
Seus alunos sentiam-se privilegiados por terem ele como professor daquele curso.
Saía para sua terceira jornada feliz, com uma maçã nas mãos e sentindo que só mais duas horas e acabariam suas aulas e seu cansaço. Ledo engano.
Duas horas depois, terceira jornada cumprida e seu cansaço aumentava. Pensava na volta pra casa. Dentro do ônibus lembrava dos tempos da faculdade e dos sonhos.
Lembrava de que tinha a intenção de escrever a história em livros, mestrados. Dialéticas avançadas e pesquisas. Mas tudo ficou para trás, tudo ficou na necessidade de sobreviver e pagar suas contas e o aluguel.
Abro um aparte meu caro leitor para dizer algo que tenho travado em minha garganta há anos, mesmo sendo eu um gato e nunca ter sido um mestre em nada: Como professor ganha mal neste país!
A melancolia de sua chegada em casa se repetia diariamente, ao ir ao banheiro já estava acostumado a tatear no escuro para tomar banho e escovar os dentes. Jantava a sobra do jantar da noite anterior ou outra maçã.
Até que certo dia, num desses jantares de sobra de comida de ontem, a luz do banheiro acendeu sozinha como por mágica. Levou um susto muito grande. Deixou que o prato simples de feijão e arroz sem mistura caísse no chão. A televisão desligou. Teve muito medo simplesmente.
Foi ao banheiro, olhou para todos os lados, nada viu de diferente senão aquela luz antes queimada, agora nova.
Limpou a sujeira de seu jantar interrompido e foi para cama.
E pela primeira vez em anos, rezou. Fechou os olhos e dormiu.
Sua rotina se repetiu vários dias, mas sempre ao retornar para casa, a primeira coisa que fazia era ir ao banheiro. Conferia a luz, que sempre funcionava.
Tomava banho, jantava vendo televisão e dormia. Mas agora sempre rezava, pedia que Deus o protegesse de algo que não sabia o quê, mas o incomodava muito.
Meses se passaram, até que um dia já indo dormir, ouviu uma voz vinda do banheiro. Nem pensou duas vezes e deitou-se na cama. Rezou muito.
Não consegui pregar os olhos, virava de um lado para o outro, esperava algum outro som que não fosse o trânsito quase nulo de sua rua, de seu ventilador de teto ou do ar condicionado de seu vizinho de cima, e nada.
Levantou da cama sem dormir, foi ao banheiro devagar, com um medo juvenil, e nada encontrou.
Pronto sua rotina estava estabelecida de novo. Só que com um porém: Não conseguia se concentrar na aula, estava sonolento e seus alunos o perceberam assim.
Perguntavam se algo estava errado com ele, se estava doente. Mas a resposta era a mesma: uma indigestão noturna que não o deixou dormir direito e ainda doía muito.
Sabia que se falasse a verdade seria motivo de chacota de seus alunos. Nem ele acreditava direito no que estava acontecendo.
Mas entrou em casa desta vez receoso e não foi, como de costume, conferir a luz do banheiro, não tomou banho e nem escovou os dentes. Foi para cama direto, sem televisão, sem jantar. E rezou.
Num instante de pausa entre suas orações e insônias ouviu novamente a voz vinda do banheiro, e desta vez entendeu o que a voz dizia: “Antônio, venha cá”.
Pergunte-me se ele foi. Vamos, pergunte-me.
Que nada, entrou embaixo de seu travesseiro, se enrolou todo nos lençóis e pedia a Deus misericórdia pela sua vida, sua ganância em querer ser rico, pela sua falta de apego nas coisas poucas e boas que conquistara, pela profissão a que amava mas não dava o valor que merecia por ganhar mal e num instante pensou: “Gosto do que faço, e o faço bem meu Senhor!”
A noite foi passando entre pedidos de misericórdia, perdão e medo de Antônio Carlos. Este certo que Deus o ouvia ali, entocado em seus lençóis e travesseiro. Com muito medo.
Amanheceu o dia e pela primeira vez em treze anos não foi trabalhar. O telefone tocava, mas ele não atendia. Eram os colegas de trabalho preocupados com sua ausência e ele sabia disso.
A luz do dia começou a adentrar seu apartamento pelas frestas da janela de seu quarto.
Pegou a primeira roupa que estava à mão e saiu para a rua, tomou seu café na padaria da esquina com medo das pessoas. Estas que o olhavam cheios de receio pela sua face pálida e seu semblante de louco. Insone.
Ao sair da padaria viu um pacote de notas de cinqüenta reais no meio fio, nem pensou duas vezes e se lançou sobre ele no mesmo instante em que ouviu um grande ranger de pneus e sua vida acabou embaixo do ônibus de número treze, o outro de duas horas após o seu de costume diário há treze anos.



Gato Laranja
13/03/2008

Momentos em que os filhos não mandam (Uma Fábula)

Chega a ser improvável esta frase título de meu conto, pois na vida de um casal humano, os filhos sempre mandam mesmo ainda na barriga de suas mães, e olha que sou gato e nunca conheci minha mãe, mas entendo o que ela deve ter passado comigo nos meus primeiros miados.
E uma mãe de gato, tem vários pais para seus filhotes, diferentemente dos humanos. Que só geram um filho por vez. Naturalmente seria assim. Mas me contaram certa vez num muro de minhas noites que uma mulher humana teve três filhos de uma só vez, talvez fosse ela uma felina disfarçada e não sabia.
Mas vamos a nossa história. A história que para você humano poderia até ser a sua.
Havia numa terra distante daqui um casal, um rei e uma rainha para ser mais exato, que decidiram coisas diferentes do que pessoas de sangue nobre, e no poder, normalmente nunca cogitam. O fim da monarquia em seu país. Esta decisão foi acertada ao fogo de sua paixão de adolescentes, mesmo sendo eles na época adultos e conscientes do que faziam:
- não quero mais a monarquia - dizia ela - pois o reinado de meu pai e minha mãe fora injusto com seu povo.
- pois é, nunca havia pensado nisso, até que em meu país a justiça imperava, mas haviam torturas, repressão e determinações ditatoriais de meus pais, que eu nunca concordei – replicou ele se dando conta de uma realidade de sua vida, mas que nunca o impediu de se sentir príncipe.
Mas o acaso veio, e seus sangues nobres em comum os levou a casar, para que pudessem dar continuidade ao novo reino já estabelecido por Deus e pelas monarquias ancestrais de sua árvore genealógica.
E durante a convivência deste casamento nobre, esta idéia pairou no ar e na cabeça daqueles ex-príncipes e agora monarcas absolutos de seus reinos.
Agora vamos falar de uma coisa, caro leitor, casamentos de príncipes e princesas são convenientes, silentes e nunca feitos por amor e sim jogadas políticas.
E eles sabiam disso, mas fizeram com que a convivência os aproximasse, tentaram a paixão, que deu certo. E a certa altura o amor, de tantas tentativas, nasceu. Mas era um amor de tentativas, sem olho no olho.
E suas idéias democráticas, nunca amadureceram, mas eram sempre lembradas no momento em que os dois inadvertidamente iam pra cama, faziam amor e pensavam no futuro, junto a fumaça de seus cigarros de fumo nobre e selvagem cultivados na África.
- como faríamos para esta monarquia aqui ser diferente? – perguntava ele, sabendo a solução.
- não teremos herdeiros. – replicava ela, sem a menor dúvida de que esta seria a única solução, para que seu povo pudesse escolher seu futuro pelas próprias mãos e suas idéias democráticas pudessem contrariar o destino nobre a que foram submetidos.
O tempo foi passando, e o que era uma idéia, se tornou uma convicção mútua.
Seus conselheiros, quando avisados por pessoas próximas ao rei e por donzelas de companhia da rainha, achavam a idéia um absurdo. Mas nada podiam fazem contra a vontade, a decisão de seus monarcas.
Mas numa bela tarde, a rainha começou a ter dores, médicos foram chamados, curas milagrosas não resolviam. Curandeiros de outras etnias aconselhavam, faziam sortilégios e nada resolvia. Até que uma conselheira idosa do casal. Uma anciã do reino sentenciou: “ a rainha está grávida!”
Eles não acreditaram no que a anciã disse e imediatamente mandaram enforcá-la em praça pública. Imitando neste gesto o poder de seus antigos reis, seus pais.
O tempo foi passando, o corpo da anciã já não era mais exibido ao povo pendurado em sua forca, mas a sentença da mesma se confirmou.
Entraram os dois monarcas em desespero, sua revolução democrática estava perdida, ela não queria aquele filho e ele começou depois de contrariadas todas as suas convicções pessoais a gostar da idéia.
E num casal nobre, em que tudo, apesar das conveniências dava certo, começaram os desentendimentos.
A gravidez, irritava e aturdia a rainha a certo modo, que apesar de sua resignação ao fato, e de sua busca de entendimento com o Divino, ela se sentia confusa com tudo aquilo.
O rei, em sua posição, não cético, mas esperançoso, sonhava com uma princesa bela, uma linda donzela que pudesse levar seus ideais para frente, sendo ela mulher e ele o rei a quem a introduziria em seus ideais democráticos no futuro.
E aí veio o grande afastamento entre os monarcas, ela por sua vez, sentindo todo o peso físico de sua gravidez e o fardo de ser o que nunca quis futuramente, esqueceu-se do rei em seu coração. E do povo em sua aflição.
Ele, ao ver sua linda rainha fisicamente mudar, suas idéias entraram em parafuso. Mas não fora só isso que o rei sentira e sim a presença de um futuro melhor, diferente do que eles juntos haviam planejado como o melhor antes da gravidez real.
O povo rejubilava com as notícias de que tudo corria bem no ventre da rainha, mas não entendia porque o rei se tornara um político tão sórdido quanto a seu pai, o antecessor.
Ele concentrava suas forças no preparo de um reinado futuro de uma princesa democrata com mãos de ferro e subjugo das vontades e necessidades de seu povo. Mesmo ele sem saber se seria seu herdeiro homem ou mulher, pois em seus sonhos e suas idéias a democracia só se tornaria real se nascesse daquele ventre nobre uma princesa, e ele pai, não daria dote algum a príncipe nenhum por política, conveniência ou resoluções absolutistas.
Mas ele se tornou com aquela mudança um absolutista, e a rainha se afastava dele na medida em que seu ventre crescia e ele governava, perdido com sua vida pessoal, com injustiças e mãos de ferro.
O abismo entre os dois estava ficando tão grande, que perto ao nascer o fruto do amor deles, eles não se falavam, não se entendiam e muito menos se davam apoio para enfrentar a mudança em que o reino estava se submetendo.
O povo esperava a notícia do nascimento com festa. Pois o mesmo povo não residia no castelo e nem dormia na cama real.
E como o rei sonhara, nasceu uma menina linda, de olhar atento, uma fome do mundo e de leite maiores que suas dores, que fora pelo rei, sem dada escolha a rainha batizada de Maria.
E no desentendimento dos monarcas, nas festas em que o povo fazia sem se dar conta de sua fome e necessidade, veio uma notícia inédita nos castelos medievais do mundo todo. O rei e a rainha se separaram de fato.
A rainha ficou com o povo, o castelo, com a solidão e perdida. Onde por aí maus conselheiros começaram a roubar o poder de suas mãos.
O rei fugiu para a floresta negra de seu reino, se escondeu de sua realidade e seu sonho democrático para poder pensar e agir.
Em suas tentativas de ver sua princesa Maria, poucas vezes obtivera sucesso, pois abdicara de seu trono em busca de um ideal democrático e de um sonho em que só a presença viva de Maria em seu coração e sua vida seria possível. Mesmo ele escondido na floresta.
Seus correligionários e pessoas próximas que abraçavam sua idéia de justiça estavam sempre a seu lado. Seu pai veio de longe apóia-lo em sua decisão de dar poder ao povo. Sua mãe, rainha distante se comprometera a negociar junto ao novo monarca, pai da antiga rainha e avô de Maria as idéias democráticas do filho.
Nunca em momento algum chegaram a um acordo, e o povo pereceu a tudo. Passava cada dia mais fome, mais desesperança, cabeças rolaram em guilhotinas, enforcamentos se tornaram a principal forma de diversão ao pobres e a injustiça imperou no reino.
E a única coisa que pairava sobre toda essa temeridade fora o sorriso sempre angelical e feliz da princesa Maria que resistia a essa batalha política com flores, amor e uma alegria de viver fora do comum.
E foi quando Maria, na flor de sua juventude, abraçou os ideais do pai, e se lançou a floresta que já não negra, estava toda florida e cheia de vida, bondade e fadas de bom coração.
Sua mãe desesperou e declarou guerra aos habitantes da floresta. Foram anos de sangrentas batalhas e mortes inocentes em que a única coisa que fazia com que o coração do antigo rei e pai de Maria se alegrasse era, ao chegar em casa com seu elmo entreaberto e sua espada suja de sangue, receber o abraço, o sorriso e o amor de Maria.
Mas a princesa também sofria em seu interior e seu coração se amargurava com a insensibilidade de sua mãe rainha absolutista. Maria se tornara uma democrata igualmente ao pai.
E ao fazer vinte e um anos Maria pôde finalmente reivindicar o trono. O fez de uma forma tão sensata e feliz. Que ao dia seguinte renunciou ao reino. Estabeleceu eleições onde todos votaram, trouxe seu pai a seu lado e foi feliz. Realizando seu próprio sonho, o de seu pai e acalmando o coração de sua mãe, sempre e também muito amada por ela.
As guerras acabaram, e a vida tornou-se mais justa para o reino.
E todos foram felizes para sempre!



... GATO LARANJA ...
10/03/2008

O Cavalheiro e a Vagabunda

Pode parecer ironia do destino, ou até como dizem por aí, coincidência. Mas Carlos conheceu Lucy em seu trabalho. De uma forma como conhecia tantas outras pessoas diariamente.
Ele, advogado em começo de carreira, trabalhando arduamente no período da manhã em um escritório em que vinte e tantos outros advogados como ele se digladiavam pelos poucos míseros cientes que apareciam vez ou outra. No período da tarde, mal almoçava e corria para a Defensoria Pública, onde atendia pessoas que não tinham condições de pagar por consultoria jurídica, ou mesmo processos a serem tramitados.
Como já se sabe, neste tipo de lugar é onde as pessoas humildes e principalmente pobres recorrem a advogados em busca de auxílio, consolo e também soluções para seus problemas judiciais.
Carlos tinha a sensação real de que trabalhava muito e ganhava pouco. Mas na realidade era o contrário, ele ganhava pouco para muito trabalhar. Mas isto, vamos e venhamos leitor, não é só com o Carlos que acontece neste país. E não é só privilégio de advogado em começo de carreira.
O que ele nunca esperou que acontecesse ali, naquele ambiente burocrático, cercadas de pessoas cultas e estudadas dando e buscando soluções a problemas de pessoas simples que seu coração fosse como que lhe arrancado do peito.
Ele tinha mais do que uma namorada, ele tinha um compromisso sério, tinha uma noiva. Mas o destino, ah!... O destino.
Sempre tivera certeza em seu coração e em seu noivado namoro de quase oito anos que ela era tudo o que sempre sonhara.
Uma moça inteligente e bonita, esforçada estudante de medicina, uma família que o considerava já como que um filho, uma dedicação mútua e incondicional na paixão, no dia-a-dia, no amor e no sexo.
Mas quando Lucy sentou-se pela primeira vez em sua mesa na sala da Defensoria, algo em seu âmago mudara na hora. Ele, sempre cético, perspicaz, audacioso, melindroso e preparado para qualquer pergunta, como que sendo a confirmação de sua vocação para o Direito Civil. Ouvindo as queixas de uma mulher simples, sentiu seu coração se partir. Coisa estranha para seu entendimento do Direito e o do que é ser um homem direito.
Ela falava sobre seu problema de trabalho com uma pessoa que, se entendendo seu patrão de fato, não conseguia se desvincular dele. Pessoalmente e profissionalmente. Ao caso de até ter apanhado deste por tal tentativa.
Mas Carlos só prestava atenção em seus lábios doces, sua voz meiga e seu sorriso encantador. As palavras saiam da boca dela como que um canto de anjos ao raiar do dia. Não conseguiu prestar atenção em nada do que dissera a moça, ao ponto de pedir com uma gentileza incomum a ele, que ela repetisse suas queixas. E aí a ficha caiu sobre as queixas da rapariga.
Ela apanhava de seu cafetão, pois era prostituta de rua, tinha residência fixa, mas não conseguia se livrar daquele aproveitador de meretrizes mal amadas assim como ela.
Neste exato momento, concentrou-se no caso simplesmente, ouviu e deu suas opiniões. Marcando um outro dia para que pudesse estudar melhor a situação deprimente dela e aí sim, tentar esboçar um processo ou coisa que valha.
Nesta mesma tarde atendeu outras pessoas, e ao se pegar pensando em Lucy, vez ou outra, perdia sua linha de raciocínio e a razão daquilo ser verdade em sua alma. Sentiu-se como que numa bolha de vidro o dia todo, com um pensamento perdido e confuso.
Ao chegar em casa, deparou-se com uma surpresa preparada por sua noiva. Um jantar a luz de velas, uma cama cheia de pétalas de rosas e uma moça magnífica numa lingerie preta. Roberta adorava surpreender seu noivo com coisas deste tipo.
Mal jantaram, e estavam se amando, aos beijos e preliminares intermináveis, mas na hora em que estava gozando mesmo se pegou transando com Roberta e pensando em Lucy.
Fingiu que nada estava acontecendo, mas naquele quarto escuro de seu apartamento simples, deitado na cama com uma mulher esplendida ao seu peito sonhando e dormindo angelicalmente, estava insone, pensando onde estaria Lucy naquele momento? Onde ela estava em seu peito? Que por mais que tentasse, não conseguia dormir com um certo ar de culpa de tudo o que estava lhe incomodando. Não podia estar acontecendo aquilo com ele. Não com ele.
Os dias se passaram como que se vinte e quatro horas fossem quarenta, nas noites quentes de amor com Roberta só conseguia prosseguir se pensasse em Lucy. E isto sim o incomodava. Mas o tempo não passava. Aquele dia marcado para a conclusão do ato jurídico da moça de rua não chegava nunca.
Mas este dia chegou. Levantou cedo, foi para o escritório, contava as horas e nem almoçou foi direto para a Defensoria.
Ao notar Lucy entrando no salão de advogados públicos, reparou que seu sorriso estava manchado por um inchaço, conseqüência de alguma briga ou golpe que a moça levara. O coração dele encheu-se de ira, mas acalmou-se quando a moça sentou, o cumprimentou e sorriu um sorriso dolorido, mas ainda doce.
Ele fingiu que nada acontecia, seguiu todos os protocolos, averiguou informações sobre o problema dela até que ela, sem nenhuma maldade, perguntou:
- Você tem namorada, esposa?
Carlos perdeu os sentidos por alguns meio segundos e respondeu que sim. Era noivo, iria se casar ao término da graduação da noiva.
Neste instante o sorriso de Lucy como por mágica desapareceu, mudou de postura em sua cadeira de ‘cliente’ e voltou ao assunto do cafetão com a maior naturalidade.
Tal atitude reduziu Carlos a nada por dentro. “Porque dissera a verdade? Não poderia ele simplesmente ter sido mais advogado que humano e mentido?”
Ao término da reunião, ela saiu, mas antes deu a volta na mesa, aproximou-se dele e lhe deu um beijo no rosto. Virou-se e foi embora, com a promessa de voltar na próxima semana para assinar procurações e o início do processo.
Carlos sentiu uma vontade louca de sair correndo atrás da moça e lhe dizer o que sentia por ela. Mas o que sentia ele? Desejo? O que dizer?
Ficou imóvel com a sensação maravilhosa daquele beijo em seu rosto.
Foi o que bastou para a semana não passar novamente, nem os amigos, o futebol, o sexo, o vinho, nada fazia sentido. Sentia-se um viciado que só pensava em sua droga. Seu anjo, sua prostituta, seu amor.
O tempo não passava, mas a conjugação verbal muda e o tempo passou e ela não veio.
Aflito seria pouco para descrevê-lo ao notar que ela além de se atrasar, não viria, como não veio mesmo para assinar os papéis do processo.
Amigo leitor, nem preciso falar aqui sobre a vertigem, sobre a dor e a insegurança que ele sentiu, pois imagino que todos que amaram, pelo menos uma vez na vida já passaram por essa situação de perda do que não tem. E isto é pior do que se perder o que se tem.
Saiu do escritório público direto para o centro da cidade, esqueceu-se de ir para casa e ficou vagando pela noite com seu paletó nas costas pela zona de meretrício em busca dela, seu anjo do mal. Seu amor prostituído.
Mas isso, o fato de ela ser prostituta já nem o incomodava mais. Ele apenas a queria e para sempre.
Avistou de longe uma mulher apanhando muito de um homem grande e forte, e como o destino é cruel às vezes. Viu que a mulher era Lucy.
Correu para apartar a acabou apanhando junto com ela, no mesmo instante em que a polícia chegou, enquadrou e levou os três para delegacia. Num lance cinematográfico o cafetão fugiu e sobrou só para os dois pombinhos.
Ao sentarem-se os no banco da sala do escrivão, atados na mesma algema, Carlos olhou para Lucy, e ao receber o retorno deste olhar dela, disseram em uníssono: “Eu te amo!”
E foi assim a forma em que algemados literalmente, algemaram-se duas almas distintas, na vida e na sorte, em profundo amor para sempre. O cavalheiro advogado e a vagabunda prostituta.





... GATO LARANJA...
04/03/08